Os maiores operadores mundiais de computação em nuvem estão a caminho de gastar mais em infraestruturas de inteligência artificial do que geram em fluxo de caixa livre até 2027, concluiu uma análise da Reuters às estimativas consensuais da LSEG, colocando os mercados de dívida no centro da próxima fase da expansão da IA.
A Microsoft, a Alphabet, a Amazon, a Meta e a Oracle estão todas a expandir a capacidade dos centros de dados, a comprar chips avançados e a garantir energia para cargas de trabalho de IA a um ritmo que excede o dinheiro gerado internamente. A Reuters calculou que cada $1 adicional de fluxo de caixa operacional nas cinco empresas corresponde a cerca de $1,57 em despesas de capital adicionais até 2027.
Os números põem em causa a ideia de que as maiores empresas tecnológicas conseguem financiar a corrida à IA sobretudo com os lucros. Os seus balanços continuam muito mais sólidos do que os dos mutuários empresariais típicos, mas a dimensão dos gastos planeados começa a transformar as decisões de financiamento numa parte relevante da história.
Os planos de investimento aceleram até 2026
As despesas de capital da Amazon, Alphabet, Microsoft, Meta e Apple totalizaram cerca de $227 mil milhões em 2024 e subiram para $391 mil milhões em 2025, de acordo com as estimativas citadas pela Reuters. As orientações das empresas e as estimativas do mercado indicam que os gastos do grupo poderão ultrapassar $635 mil milhões em 2026.
A Amazon definiu uma meta de gastos de $200 mil milhões para 2026. A Alphabet apontou para $175 mil milhões a $185 mil milhões, enquanto a Meta indicou que os seus gastos poderão atingir até $135 mil milhões. Só estes compromissos mostram como a corrida às infraestruturas de IA está a prolongar-se para além de um curto ciclo de compras de chips, abrangendo anos de investimento em centros de dados, equipamento de rede e fornecimento de eletricidade.
A Goldman Sachs prevê despesas de capital dos operadores de hiperescala entre $1,15 biliões e $1,4 biliões no período de 2025 a 2027. Esse valor compara com os $477 mil milhões gastos nos três anos anteriores, de 2022 a 2024.
Amin Mrini estimou que os compromissos combinados de despesas de capital das cinco empresas para 2026 equivalem a cerca de 3,8 vezes o seu fluxo de caixa livre combinado. O fluxo de caixa livre mede o dinheiro que sobra depois de uma empresa pagar os custos operacionais e as despesas de capital, sendo um indicador útil do financiamento que permanece disponível sem recorrer a dívida ou emitir ações.
A diferença não significa que as cinco empresas enfrentem a mesma pressão de financiamento. A Amazon, a Microsoft, a Alphabet e a Meta operam negócios principais rentáveis que geram fluxos de caixa operacionais substanciais. Ainda assim, os valores agregados mostram que a expansão da IA compete cada vez mais com recompras de ações, dividendos, aquisições e outras utilizações empresariais do dinheiro.
A Oracle oferece o exemplo mais claro de pressão
A Oracle destaca-se entre os grandes compradores de infraestruturas porque as suas despesas de capital cresceram muito mais rapidamente do que a geração de caixa operacional. A Reuters noticiou que as despesas de capital da Oracle aumentaram de 47% do fluxo de caixa operacional no ano fiscal de 2022 para 174% no ano fiscal de 2026, terminado em maio.
Durante esse período, a Oracle gastou $55,7 mil milhões em despesas de capital, ao mesmo tempo que gerou $32,0 mil milhões em fluxo de caixa operacional, segundo os valores citados na análise. O seu fluxo de caixa livre tornou-se negativo e as suas ações tinham caído 36% desde o início do ano no período abrangido pelo relatório.
A Oracle delineou planos para angariar entre $45 mil milhões e $50 mil milhões através de financiamento por dívida e capital próprio para expandir a cloud. A posição da empresa ilustra o desafio de financiamento enfrentado pelas empresas que procuram celebrar grandes contratos de infraestruturas de IA: a procura contratada ou prevista pode justificar uma construção rápida, mas os centros de dados e o equipamento informático exigem financiamento muito antes de as receitas dos clientes serem totalmente cobradas.
Os resultados trimestrais mais recentes da Microsoft também evidenciaram a dimensão do investimento. A empresa comunicou $35,8 mil milhões em fluxo de caixa operacional, contra $37,5 mil milhões em despesas de capital, incluindo locações financeiras. As locações financeiras permitem às empresas utilizar equipamento enquanto distribuem os pagamentos ao longo do tempo, mas continuam a representar um compromisso financeiro de longo prazo ligado à expansão das infraestruturas.
A Amazon comunicou um aumento de 30% no fluxo de caixa operacional dos últimos 12 meses, para $148,5 mil milhões, enquanto o fluxo de caixa livre caiu para $1,2 mil milhões, segundo a Reuters. O contraste mostra a rapidez com que uma elevada geração de caixa pode ser absorvida quando uma empresa constrói simultaneamente capacidade de cloud e sustenta uma enorme operação de retalho e logística.
As expectativas de receitas enfrentam um obstáculo exigente
Os cálculos de Mrini tornam mais claro o teste comercial das infraestruturas de IA. Utilizando uma referência de 15% para o retorno do investimento antes de impostos, as receitas provenientes da computação de IA teriam de atingir aproximadamente $2,9 biliões até 2030 para cobrir o custo do capital aplicado.
Isso seria mais de três vezes o atual mercado de computação em nuvem, com uma base de cerca de 211 mil milhões de dólares, e exigiria um crescimento anual de aproximadamente 68% durante cinco anos consecutivos, segundo as estimativas. O nível de receitas necessário não significa que não possa ser alcançado, mas deixa pouca margem para um excesso de capacidade sustentado, uma adoção empresarial mais lenta da IA ou quedas acentuadas dos preços.
O Economic Index da Anthropic acrescenta outra complicação. O conjunto de dados citado na análise sugere que uma descida de 10% no custo de uma tarefa de IA está associada a um aumento de utilização de apenas cerca de 3%. Se essa relação se mantiver à escala, a descida dos preços dos serviços de IA poderá estimular a procura sem gerar consumo adicional suficiente para compensar o rápido aumento dos custos de infraestrutura.
O crescimento das receitas de IA está atualmente estimado entre cerca de 25% e 30% ao ano, em comparação com um crescimento das despesas de capital próximo de 60% a 70%, segundo a análise de Mrini. Esta discrepância pressiona os operadores de serviços na nuvem a transformar a experimentação com IA em receitas empresariais recorrentes e de margem elevada.
Os ciclos anteriores de infraestrutura oferecem uma comparação prudente
Um estudo do Cornell Capital Group citado pela Reuters comparou o boom da construção de infraestruturas de IA com períodos anteriores em que infraestruturas transformadoras geraram retornos desiguais para os acionistas.
Durante o boom ferroviário dos EUA no século XIX, as ações e obrigações ferroviárias atingiram 10,6 mil milhões de dólares, ou cerca de 400 mil milhões de dólares em valores atuais, enquanto a dívida do governo dos EUA se situava em 1,2 mil milhões de dólares. O estudo afirmou que 90% das empresas ferroviárias faliram após o Pânico de 1873 e que 25% da extensão das linhas ferroviárias entrou em administração judicial durante o Pânico de 1893.
A aviação comercial criou um enorme valor económico, embora tenha gerado lucros acumulados relativamente limitados para o setor. O estudo estimou o lucro líquido global das companhias aéreas nos últimos 80 anos em cerca de 86 mil milhões de dólares, antes de o setor perder aproximadamente 190 mil milhões de dólares durante o período de três anos da Covid-19.
O ciclo das telecomunicações do final da década de 1990 oferece um paralelo tecnológico mais próximo. Mais de 500 mil milhões de dólares foram investidos em redes de fibra e sem fios, mas mais de 23 grandes empresas de telecomunicações tinham declarado falência até 2002, juntamente com perdas de cerca de 2 biliões de dólares em valor de mercado. O estudo da Cornell afirmou que, na altura, menos de 5% da fibra instalada estava ativada.
A infraestrutura de IA pode revelar-se mais produtiva comercialmente do que essas redes anteriores, sobretudo se o software e os agentes forem integrados nos fluxos de trabalho das empresas. No entanto, a história dos caminhos de ferro, das companhias aéreas e das telecomunicações mostra que uma utilidade económica duradoura não se traduz automaticamente em retornos atempados para as empresas que financiam a expansão inicial.
Nos mercados de criptomoedas, os dados disponíveis recomendam prudência, e não uma previsão definitiva. A emissão de dívida em grande escala por empresas tecnológicas pode afetar as condições dos mercados de crédito e o apetite pelo risco, mas nenhum dado fornecido demonstra que o endividamento dos hiperescaladores esteja já a retirar liquidez aos ativos digitais ou garanta um movimento específico do mercado. A questão mais imediata é saber se as receitas de IA começam a acompanhar o capital que está agora a ser comprometido.
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